Yago Travagini é economista e consultor de mercado pela Agrifatto
Stefan Podsclan é engenheiro agrícola e consultor de mercado pela Agrifatto
Jéssica Huescar é médica veterinária e trainee pela Agrifatto
Antônio Costa é estagiário pela Agrifatto
Laura Rezende é médica veterinária e consultora pela Agrifatto
Resumo da semana:
Em São Paulo, as escalas relativamente confortáveis permitiram uma pressão baixista por parte dos frigoríficos sobre os valores negociados pelo boi gordo, que atingiu a menor média semanal das últimas 11 semanas, com o valor de R$ 314,57/@. Cabe a ressalva de que o mês de agosto/21 costuma ser um mês de preços historicamente puxados para baixo, principalmente nos últimos dez anos, com isso, essa pressão negativa imposta nas últimas semanas sobre o boi gordo encontra respaldo nos últimos anos também.
Após vir de um início de mês conturbado com consecutivas quedas nos preços, o bezerro engatou a segunda semana consecutiva de alta no mercado físico de Mato Grosso do Sul. Apesar de pouca pastagem disponível para a fase de recria, a procura pelo animal ainda se sustenta no estado, o que fez com que a média das negociações atingisse o R$ 2.952,00/cab, avançando 3,44% ante a semana passada.
Apesar da desvalorização da soja em Chicago, recuando mais de 5% no comparativo semanal, e que foi influenciada pelo desempenho do farelo e óleo de soja, a oleaginosa se valorizou no mercado físico brasileiro. Sustentada pelo avanço do dólar frente ao real, o preço referência em Paranaguá fechou a semana com alta de 1,60% em comparação a sexta-feira passada, cotada a R$ 174,94/@.
A expectativa de que o banco central dos EUA retire os estímulos econômicos utilizados para o conter os danos causados pela pandemia juntamente com a aversão ao risco do mercado fizeram com que o dólar registrasse uma forte alta durante a semana. A moeda norte-americana encerrou a sexta-feira cotada a R$ 5,38, com uma valorização de 2,49% em relação a sexta-feira da semana retrasada
1. Na tela da B3
Estaríamos quebrando padrões? Brincadeiras à parte, depois de abordamos a “paradeira” do boi gordo na B3, com 38 dias consecutivos em que a cotação do vencimento para outubro/21 não se movimenta além dos R$ 320-329/@, essa semana resolveu romper.
O contrato para outubro/21 fechou a semana com desvalorização de 3,01%, ficando cotado a R$ 313,65/@ ao final do pregão da sexta-feira. Esse é o menor patamar registrado dos últimos 53 dias, sendo que a mínima do dia ficou em R$ 313,20/@, não superando por pouco o suporte criado no dia 28/06/2021, quando foi negociado a R$ 312,55/@.
Sem grandes novidades que enfraquecessem as cotações no mercado físico, as negociações de boi gordo na bolsa brasileira foram contaminadas pelo pessimismo geral do mercado durante a semana. Enquanto as bolsas norte-americanas recuavam 0,73% (Nasdaq) e 1,11% (Dow Jones), o índice Ibovespa emplacou uma desvalorização de 2,59%, atingindo o menor patamar desde abril/21.
Como o mercado mobiliário é todo interligado, não só o boi gordo recuou como também diversas commodities negociadas na B3. Apesar da desvalorização, o mercado demonstrou ter entrado em uma zona sobre vendida, o que poderia indicar uma perda na força de queda.
Fonte: Agrifatto; B3;
E alguns players parecem ter observado essa movimentação e já começaram a formar maiores posições compradas (apostando em uma valorização). Isso por que, enquanto as Pessoas Físicas reduziram sua posição comprada em 31% durante a última semana, as PJs não financeiras (frigos) aumentaram sua exposição na compra em 527%, atingindo um saldo comprado de pouco mais de 3,43 mil contratos em aberto (futuros + opções), o maior desde 29/11/2020.
No entanto, vale a ressalva de que os Investidores Institucionais (Fundos) aumentaram sua exposição vendida em 35%, com pouco mais de 10,37 mil contratos em abertos (futuros + opções), através principalmente do encerramento de PUTs que haviam sido vendidas anteriormente.
Fonte: Agrifatto; B3;
Como o volume de contratos em aberto na bolsa brasileira para o boi gordo pouco se alterou, presume-se que o que ocorreu foi uma “troca” sobre quem detinha as apostas na alta do boi gordo.
1.1. O que o mercado futuro proporciona?
Com o mercado embalado em um movimento de desvalorização global, mas sem alterações nos fundamentos do mercado físico, ainda continuamos com a percepção de que há espaço para a valorização do boi gordo frente os preços atuais negociados na B3 para o quarto trimestre de 2021.
O contrato futuro para outubro/21 tem um importante suporte nos R$ 312,55/@, que se rompido, poderia trazer variações negativas ainda mais intensas para tal vencimento. No entanto, essa desvalorização encontraria uma “barreira” no mercado físico, que mesmo com a pressão imposta pelos frigoríficos desde o início da semana teve pouca efetividade sobre o preço do boi gordo em São Paulo.
Desta forma, ainda enxergamos o patamar atual do contrato futuro do boi gordo na B3 para outubro/21 a R$ 313,65/@, para novembro/21 a R$ 320,10/@ e para dezembro/21 a R$ 318,05/@ abaixo da realidade que enxergamos para este período. Diante disto, a compra de futuros para esses meses se mostra uma boa alternativa, pensando principalmente na proteção contra uma possível valorização da reposição, caso o boi gordo venha a se valorizar.
Além disso, a compra de CALLs ou a operação estruturada com CALLs também se mostram boas estratégias para surfar em uma possível valorização do boi gordo. Sendo possível a compra de uma CALL pura com strike nos R$ 325,00/@ com o desembolso de apenas R$ 3,49, ou então, uma CALL Spread com strikes entre R$ 320,00/@ e R$ 330,00/@ com um custo estimado de R$ 2,82/@, demonstrando que as opções de compras voltaram a ficar bem interessantes no boi gordo para outubro/21.
No lado “oposto” enxergamos nesse momento pouco espaço para a venda, visto que a tese desenhada por nós em relação a oferta e demanda para este final de 2021 contempla uma valorização do ativo, que atualmente se encontra “travada” pelo mercado interno, no entanto, com as festas de fim de ano, a reabertura do comércio e do food service sem restrições e a expectativa de forte crescimento econômico no último trimestre do ano esse mesmo mercado interno nos daria a possibilidade de valorização do boi gordo, visto que a ponta da oferta e da demanda externa nos parece bem precificada e alinhada frente aos valores atuais.
2. Enquanto isso, no atacado…
O mercado atacadista paulista operou “em cima do muro” na semana que se passou. Incerteza nas definições dos preços dos principais cortes, baixa demanda interna e fluxo lento no escoamento colocou pressão no mercado interno. As vendas concretizadas foram consideradas razoáveis, porém não os suficientes para aumentar o volume de produtos disponibilizados para reposição dos estoques no varejo. Na “queda de braços” entre varejistas/distribuidores e frigoríficos, quem ganhou foi a ponta varejista, que com a pressão feita, conseguiu que reajustes acontecessem. Com isso, o preço da carcaça casada bovina recuou e fechou a semana cotada em R$ 19,66/kg, desvalorizando -0,36% no comparativo semanal.
Para o frango resfriado, de modo geral, o mercado operou com a oferta ajustada, mas o suficiente para pressionar os preços novamente, com as vendas no varejo paulista caminhando consideravelmente bem, até mesmo para o período final do mês. Com isso, os ajustes ocorreram, logo, o preço do frango resfriado fechou a semana cotada em R$ 8,32/kg, valorizando 5,05% em relação à semana anterior.
Para a proteína suína, o mercado operou com vendas razoáveis e preços estáveis, porém com volume disponibilizado para reposição menores do que a semana anterior. A movimentação para a proteína segue sem muitas novidades no mercado atacadista, com os preços da carcaça especial suína fechando a semana cotada em R$ 10,05/kg, apresentando desvalorização de -0,43% no comparativo semanal.
A aproximação do fim de mês já faz os atacadistas e varejistas começarem a preparação para a chegada de setembro/21, no entanto, o desempenho das vendas nos próximos dias será determinante para a precificação, principalmente da carcaça bovina.
3. No mercado externo
A segunda quinzena de agosto/21 se iniciou com uma forte redução no volume embarcado de carne bovinain natura, foram 28,85 mil toneladas exportadas na última semana, uma queda de 34,22% no comparativo semanal. Até o momento, o mês atingiu a marca de 130,44 mil toneladas de proteína bovina destinadas aos portos, o que representa uma média diária de 8,69 toneladas, ainda 11,81% maior que o mesmo período de 2020.
O preço médio pago pelo produto atingiu a casa de US$ 5,66 mil/t, valorizando 2,30% no comparativo entre as semanas. Com isso, as negociações do período geraram uma receita de US$ 176,28 milhões, totalizando US$ 738,57 milhões durante os 15 primeiros dias úteis do mês, o que já supera em 12,92% todo o montante adquirido com a atividade em agosto/20.
As exportações de milho voltaram a reduzir durante a última semana, foram 813,62 mil toneladas destinadas as vendas externas, queda de 45,5% no comparativo semanal. A média dos embarques diários ficou em 196,45 mil toneladas, 33,9% a menos comparado ao mesmo período em 2020. A receita gerada com as vendas externas do cereal foi de US$ 160,95 milhões para o início da segunda quinzena de agosto/21, com isso, o mês registra um montante de US$ 588,41 milhões, valor que corresponde a 59,03% do faturamento de agosto/20.
As importações do cereal também desaceleraram, foram 27,91 mil toneladas do produto que chegaram ao território brasileiro, recuo de 17,9% ante a semana retrasada. Agosto/21 totaliza 82,47 mil toneladas de milho que atracaram aos portos nacionais, uma média de 5,49 mil ton/dia, ritmo 65,9% superior ao mesmo período em 2020. As compras internacionais do produto na última semana ficaram em US$ 6,73 milhões, consolidando US$ 20,25 milhões até o momento do mês corrente, uma alta de 213,37% quando comparado ao mesmo período em 2020.
As vendas externas de soja recuaram 36,5% na terceira semana do mês compara do à semana anterior e totalizaram 1,40 milhões de toneladas embarcadas. Com o volume diário médio embarques de 332,90 mil toneladas, o mês de agosto/21 acumula 4,99 milhões de toneladas exportadas, equivalente a 86% de todo volume de agosto/20.
O preço pago pela tonelada do grão avançou 2,09%, sendo vendida na média de US$ 482,20. As vendas da semana geraram uma receita de US$ 712,46 milhões, totalizando US$ 2,40 bilhões até o momento do mês corrente, faturamento 16,7% superior ao do total de agosto/20.
4. A compra do pecuarista
Os movimentos opostos do boi gordo e do milho no mercado físico mantiveram estável a relação de troca boi/milho. O milho fechou a terceira semana do mês com leve valorização de 0,7% enquanto a arroba do boi gordo recuou 0,8%, com a saca do milho em Campinas/SP registrando preço médio de R$ 99,28/sc e a arroba do boi gordo em R$ 314,67.
As indicações dos futuros do boi e do milho na B3 também estão em sincronia mantendo as relações de troca estabilizadas e ao mesmo tempo pressionadas abaixo da média histórica de 5 anos que é de 4,07 sc/@.
O cenário que se desenha para o pecuarista nos próximos 9 meses é bastante desafiador e até o momento não há indicações que os preços do cereal devem registrar recuos significativos.
Fonte: Agrifatto;
Com o bezerro recuando 6,83% na parcial de agosto/21 até o dia 20/08, o ágio do bezerro sobre o boi gordo continuou a atingir valores menores, já chegando ao menor patamar dos últimos sete meses.
A expectativa é de que o ágio do bezerro sobre o boi gordo feche o mês de agosto/21 em 43%, cerca de 5 p.p. a menos do que fora registrado em julho/21, ajuste causado sobretudo pela desvalorização intensa do bezerro enquanto o boi gordo “andou de lado”. Esse processo abre uma janela de compra mais interessante para os recriadores do país, no entanto, a definição da compra de animais jovens (abaixo de oito meses) neste momento deve ser feita pensando o tempo de engorda deste animal na propriedade, e, caso seja acima de 12 meses, conjecturar a venda para o abate a preços menores que os atuais.
Fonte: Agrifatto;
5. O destaque da semana
O cenário de riscos e incertezas fez com que o mercado mobiliário mundial atravessasse uma recessão nesta semana. Durante o período, o Banco Central Americano (Federal Reserve) anunciou que já está se preparando para reduzir o programa de estímulos monetários ainda este ano, gerando um cenário de cautela no exterior.
O avanço da variante delta e a instabilidade política no Brasil acentuaram a situação de risco do país, fazendo com que investidores prefiram optar por economias mais seguras, ocorrendo a redução de aplicações na bolsa brasileira, com isso o principal índice de ações da B3 fechou a semana com um recuo de 3,02% no comparativo semanal, encerrando a sexta-feira a 118,05 mil pontos, o menor valor para uma sexta-feira desde a segunda semana de abril/21.
A aversão ao risco, também chegou as commodities brasileiras negociadas na B3. O boi gordo emplacou uma desvalorização de 3,01% no vencimento para outubro/21, atingindo o menor patamar dos últimos 50 dias, sendo negociado a R$ 313,65/@ na sexta-feira.
Fonte: Broadcast /Agrifatto
O avanço da vacinação no país em conjunto com as flexibilizações das medidas restritivas do combate ao COVID-19, podem ajudar a estimular o mercado novamente. No entanto, até a confirmação desses avanços, a volatilidade deve se intensificar tanto sobre as commodities como sobre o índice de ações da bolsa brasileira.
6. E o que está no radar?
A última semana completa de agosto/21 será de estruturação de cenários e preparação para o último quadrimestre do ano. O boi gordo encerrou a última semana recuando levemente em comparação a semana anterior, em um movimento de pressão negativa dos frigoríficos sobre os preços dos produtores, e, mesmo com as escalas extremamente alongadas em grande parte do centro-sul brasileiro, os recuos foram mínimos.
Com isso, o equilíbrio entre a oferta e a demanda vai demonstrando que está bem estabelecido com os padrões atuais de abate de bovinos. Mesmo com o comprometimento atuais das escalas, as ofertas de balcão a R$ 305,00/@ são amplamente rechaçadas pelos pecuaristas e com isso a tendência para esta semana ainda é de estabilidade ou leve queda nas cotações.
O principal ponto que mantêm os frigoríficos sem grandes preocupações e com compras compassadas é a demanda interna, que continua a demonstrar uma fraqueza grande na hora de emplacar aumentos. O preço da carcaça casada bovina fechou mais uma semana de desvalorização recuando a um dos menores patamares dos últimos 4 meses, e isso destaca a dificuldade dos atacadistas em repassar maiores volumes de proteína bovina aos varejistas a preços maiores, as sobras de estoques são recorrentes.