Há alguns pontos contraditórios entre o discurso do novo ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, e o perfil dos membros do Ministério da Economia no que diz respeito à política externa e abertura comercial, afirmam analistas.
Justamente por isso, eles avaliam que ainda é difícil prever como irá se desdobrar o comércio do Brasil com o mundo nos próximos anos.
“O ponto chave daqui para a frente será observar como o governo federal irá equilibrar e ponderar o discurso com viés ideológico e religioso do Ernesto Araújo e do presidente [Jair] Bolsonaro com o pragmatismo dos negócios”, reflete o coordenador do Observatório de Multinacionais da ESPM, Diego Coelho.
“Por mais que nós tenhamos alguns discursos ideológicos inflados e preferências religiosas existe o pragmatismo do mundo dos negócios: que é comprar e vender; investir e receber investimentos”, complementa.
Araújo reforçou, durante o seu discurso de posse no último dia 2, algumas ideias expressas já no final do ano passado, como uma necessidade do Brasil reavivar o nacionalismo e a sua soberania.
“Não estamos aqui para trabalhar pela ordem global. Aqui é o Brasil. […] Não deixem o globalismo matar a sua alma em nome da competitividade”, disse o chanceler, durante o seu discurso, postura que Coelho define como um “nacionalismo com um certo viés ufanista”.
Por outro lado, o especialista da ESPM ressalta que já está claro que o perfil da Secretaria de Comércio Exterior e Assuntos Internacionais do Ministério da Economia é mais pragmático e alinhado à abertura comercial. Quem está comandando a área é o economista e cientista político Marcos Troyjo, que é diretor do BRICLab da Universidade de Columbia, instituto que estuda o bloco dos BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul).
“Na secretária de comércio, há preferência explícita pela abertura comercial do País e acordos bilaterais”, diz Coelho.
Mudança?
O professor da FAAP, Paulo Dutra, observa que, apesar de Araújo ter reforçado a sua crítica ao “globalismo”, houve uma “amenização” do discurso entre o período pós-eleição para a posse. O professor lembra que, ao final de 2018, Araújo traçou críticas à China, ao dizer, por exemplo, que o país é um obstáculo para o nosso desenvolvimento. Já no último dia 2, o chanceler não fez nenhuma menção à China.
Além disso, Dutra destaca que Araújo não se opôs à participação do Brasil no multilateralismo, por exemplo, mas que, a partir de agora, o País se tornará protagonista e mais impositivo nas negociações.
O professor da FAAP avalia ainda que, na “disputa de braço” entre os interesses empresariais e econômicos, e o discurso nacionalista do novo chanceler – deverá prevalecer o primeiro. “Se nós entrarmos em um conflito muito grande com a China, por exemplo, os empresários do agronegócio certamente pressionarão o governo. Isso provocaria uma quebra muito grande de empresas”, comenta Dutra.
Fora isso, o professor destaca que, pelo fato de Araújo já passar por um desgaste dentro do próprio Itamaraty – por conta da sua indicação ao invés de um diplomata mais antigo e renomado –, dificilmente ele “compraria uma briga” com o viés de abertura comercial defendido pelo ministro da Economia, Paulo Guedes.
Já com relação à mudança da embaixada brasileira em Israel de Tel Aviv para Jerusalém, Dutra comenta que Bolsonaro deve ir “empurrando” essa questão ao longo do governo. A decisão poderia prejudicar a nossa exportação de carne para os países árabes, um dos maiores compradores do produto. Além disso, no mês de abril, ocorrerão as eleições em Israel para o cargo de primeiro-ministro, atualmente ocupado por Benjamin Netanyahu, que, provavelmente, não deve se reeleger. (Estadão)